terça-feira, 6 de novembro de 2007

CAMINHOS CRUZADOS


- Que raiva! Que ódio… Odeio, Odeio, quem é que ele pensa que é. Já não o consigo suportar. Nunca o suportei. Não foi para me sujeitar aos seus ares de importante que aceitei o lugar. Já me basta aguentar com os humores da mãe ainda tenho de levar com as birras do filho. Que cresçam ambos, melhor ainda, que vão os dois para o diabo.
Com este monólogo enraivecido, madalena vingou-se ao entrar na cozinha, batendo com toda a força a porta atrás de si. Porém, à sua frente lá estava como sempre a pacifica “Tia´Lice”, como todos chamavam carinhosamente à cozinheira da “Casa Grande”. Muito descontraída, a senhora que devia estar perto dos setenta anos, mas que quase aparentava menos duas décadas, apresentava-se serena diante de madalena, que regressava esbaforida e repleta de violência das divisões interiores da casa. Muito calmamente colocada atrás da bancada de mármore branca, que após ser utilizada inúmeras vezes, apresentava agora algumas covas na sua superfície, para onde acabavam de rolar os vegetais, que “Tia´Lice” cortava sabiamente, já sem necessitar de observar a tarefa que executava. Com um pequeno rasgo de ironia no seu rosto perguntou pausadamente.
- O que te fez o menino desta vez?
- Não me lembre desse homem, ou até tem uma certa razão, porque ele é um menino mimado.
Era de insulto em insulto que madalena ia aliviando a tensão que lhe corroía o corpo. Continuando a bufar violentamente, movimentava-se de um lado para o outro diante da bancada da cozinheira, parando por vezes para bater com mais violência com os seus saltos altos no chão de azulejos, também eles imaculados mas igualmente desgastados, pelo uso do tempo e agora a serem torturados pelas batidas ou quase coices de Madalena.
- Eu já nem sei bem como começamos, mas começo a achar que já não nos podemos cruzar. Esta situação começa a ficar insuportável, se é que já não o é.
- O problema dos meninos é apenas um. Personalidades duras que se chocam e fazem uma barulheira, mas no fundo se ambos se ouvissem, descobriam que têm muitas coisas em comum.
- Desculpe lá “Tia´Lice”, mas que posso eu ter em comum com esse, esse …esse bruto, esse selvagem, esse bicho-do-mato que está constantemente a agredir tudo o que se move à sua frente.
- A menina madalena enganasse… é pena. Com toda a sua inteligência, pensei que fosse mais atenta ao que a rodeia e que nos dois meses que está nesta casa, já soubesse distinguir, que cão que ladra não morde e se o faz que motivos teve para isso.
O silêncio instalou-se na divisão, enquanto a cozinheira voltava á tarefa de cortar os legumes baixando o seu olhar para a bancada. Madalena ficou momentaneamente a olhar para os diversos pedaços coloridos dos vegetais, à medida que foi desviando a sua vista para a porta envidraçada que dava para o jardim. Ao mesmo tempo que fez suar os tacões no sentido da porta, para a transpor, pareceu-lhe que a cozinheira tinha feito um novo sorriso irónico nas suas costas e iniciava mesmo um ligeiro trautear. Madalena fechou desta vez com mais cuidado a porta que dava para o jardim e ao sentir o ar frio de um Outono que começava a aproximar-se, sentiu que aquela brisa mais gélida lhe ia absorvendo a cólera. Madalena reflectia nas últimas palavras da cozinheira. Como tinha passado rápido o tempo pela sua vida, ou será que tinha passado com igual velocidade como com os outros? Não podia ser! Por certo a sua vida no último par de anos tinha corrido mais vertiginosamente para ela do que para os outros. Sentia-se como as rosas do jardim que tinha diante de si. A desfolharem-se. Mas ela não podia aceitar a imagem. Ela negava-se a que essa ideia se instalasse. Como podia ser possível se ainda caminhava para os trinta anos. Porém o percurso que prometia ser dourado foi-se enlameando ao longo dos anos e ela estava atolada nesse pântano. Uma pétala de rosa a asfixiar na lama.

Madalena Brandão Pinto Neto tinha nascido filha e sobrinha de gente endinheirada. Pessoas de bom coração mas para as quais, tudo o que parecia inatingível tinha apenas que ser dado um preço pelo qual se podia comprar. A infância e a juventude foi passada á sombra de notas e do poder que fizeram crescer na personalidade daquela menina características que os poucos amigos souberam reconhecer como ventos que ela semeava e que despoletavam tempestades que mais tarde ou mais cedo ia colher.
Por Eumesma

2 comentários:

Jorge Filipe disse...

Fico a espera da continuação da história.
O que será que vai fazer Madalena??
Beijinho

eumesma disse...

obrigado pelo teu sentimento de espectativa. Na realidade há mais alguns fragmentos aqui no blog que envolvem esta personagem feminina. são eles "extrato de uma traição", "crescer entre silvas" e Cap. " a tempestade". quem sabe um dia coloque mais desenvolvimentos desta história, ou simplesmente reuna paciencia para fazer um apanhado.